Uma cidade instantânea
Texto e fotos: Adriano Pereira
Em poucos dias, uma horda de voluntários ergue centenas de casas de madeiras, num ritmo frenético. E, o que era apenas um parque repleto de árvores se transforma numa verdadeira cidade, com direito a ruas, comércio e as mais diversificadas atrações. Assim, como num passe de mágica. Mas a história não tem nada a ver com algum novo tipo de empreendimento imobiliário de pronta entrega. Na verdade, estamos falando do maior evento cultural do Rio Grande do Sul – a Semana Farroupilha.
A comemoração da Revolução Farroupilha – a mais longa e uma das mais significativas revoltas civis no Brasil – ganhou o nome de Semana Farroupilha e relembra o movimento separatista do Rio Grande do Sul contra o Império que envolveu em suas lutas os mais diversos segmentos sociais e quase transformou a toda a região sul num outro país.
A guerra foi deflagrada porque a corte não atendeu aos apelos do Rio Grande, que sofria a concorrência econômica dos países do Prata e pleiteava a redução do imposto sobre o charque produzido na província, do imposto sobre o sal importado e do imposto territorial sobre as estâncias. Isso, somado a outros fatores, gerou uma revolta da elite local, culminando em 20 de setembro de 1835 com a invasão de Porto Alegre pelos rebeldes, que proclamaram a República Rio-Grandense, instalando na cidade de Piratini a sua capital. Dez anos depois, exauridos, os Farrapos (apelido dos separatistas) fizeram as pazes com o Império sem terem obtido o que reivindicavam.
Hoje, a Semana Farroupilha (que na verdade dura quatorze dias), é um momento especial de culto às tradições gaúchas. De 7 a 20 de setembro (entre a independência do Brasil e a proclamação da república Rio-Grandense), envolve grande parte da população do Estado, se encerrando com desfiles temáticos que acontecem simultaneamente em várias cidades gaúchas.
Em Porto Alegre, a festa tem seu núcleo concentrado no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Parque Harmonia) e oferece uma intensa programação social, cívica e cultural, com a constituição de um grande Acampamento Farroupilha onde ocorrem diversas atividades, mesmo após o desfile de 20 de setembro.
vencedora do concurso de prendas
No Parque Harmonia, são montados piquetes (grupos que constroem galpões de madeira) e as festividades da Semana Farroupilha tornam-se o principal atrativo da cidade, tanto de dia como à noite. Sente-se o cheiro de churrasco por todas as vielas do acampamento, pois cada piquete tem um gaúcho preparando o prato mais conhecido do Rio Grande. Também não é nada difícil achar alguém tomando chimarrão, bebida típica do sul. O mais interessante é ver a maioria dos homens usando os trajes típicos do gaúcho, como bombacha, bota, lenço e chapéu, enquanto as mulheres se vestem de prendas, com vestidos rodados. Quem visita o acampamento tem a oportunidade de conhecer os usos e costumes do gaúcho que vive no campo. No dia-a-dia rural, vê-se de perto os cuidados com os animais e até o preparo da erva mate. “Dá para conhecer mais o Rio Grande do Sul, a cultura gaúcha”, fala o garotinho Dimitri Rodrigues.
Os piquetes podem ser de algum centro tradicionalista gaúcho (CTG), órgãos públicos ou, ainda, de empresas que tentam difundir sua marca aproveitando os festejos da Semana Farroupilha. Nesses, os funcionários da empresa, familiares e convidados são os freqüentadores, enquanto nos piquetes dos CTGs todos os visitantes do acampamento são bem vindos. O frezador Joceli Figueiró sempre tira férias nesta época do ano, pega a família e segue para a Capital. “É um ponto de encontro, um ponto de aprendizado. Há pessoas que a gente vê aqui praticamente uma vez por ano só no acampamento”, diz.
No centro do parque foi montado um grande estande para artigos de artesanato, objetos típicos do gaúcho e lembranças (Feira Farroupilha). Em outro ponto existe o Centro Municipal de Eventos, construído para abrigar shows e apresentação de danças típicas. Há ainda um local que serve para competições campeiras de laço a cavalo. À noite, nos três finais de semana que compreendem as festividades, o fandango (baile tradicional gaúcho) rola solto em quase todos os piquetes e pode-se observar as pessoas dançando e se divertindo, enquanto outras passeiam ou degustam da culinária gaúcha.
O comércio impera dentro do acampamento farroupilha. Tendas de madeira exclusivamente para esse fim são montadas, principalmente para venda de roupas típicas do gaúcho. Há algumas delas no centro do parque que formam uma praça de alimentação e ainda existe um único açougue, que é constantemente municiado, servindo de fornecedor direto para todos os piquetes poderem preparar o seu churrasco. E haja carne! “O segredo é um bom fogo, não muito forte, ter a distância certa para assar e sal grosso jogado. Aí é só deixar que o fogo faz o resto”, fala o funcionário público Marco Antônio Sidra.
luz dos lampiões e artesanato gaúcho
TRADIÇÃO E GASTRONOMIA
A palavra tradição vem do latim “tradere” (traditionis), que significa trazer, transmitir, ensinar. Logo, tradição é a transmissão de fatos culturais de um povo ou, ainda, é a transmissão dos costumes feita de pais para filhos no decorrer dos tempos. É a memória cultural de um povo como o gaúcho. É um conjunto de idéias, memórias, recordações e símbolos conservados pelas gerações que são observadas de perto no acampamento.
Em cada piquete há algum exemplo de tradição gaúcha, pode-se aprender muito só em percorrer as falsas ruas de uma cidade que dura apenas 14 dias por ano. Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes, na obra “Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul”, referindo-se à tradição gaúcha, assim define: “Tradição Gaúcha significa o rico acervo cultural e moral do Rio Grande do Sul, no campo literário, folclórico, musical, usanças, adagiário, artesanato, esportes e atividades rurais”.
É herança indígena na cozinha gaúcha a utilização da mandioca, do milho assado, cozido e o aproveitamento de plantas nativas como abóbora, amendoin e batata-doce. A culinária rio-grandense pode ser assim distribuída pelas regiões gaúchas: a Praiana (à base de produtos do mar); a cozinha da Campanha e Missões (predominando as carnes bovina e ovina); a da região dos Campos de Cima da Serra (onde a influência italiana é forte). O churrasco, assimilado por todas as regiões, é largamente apreciado reunindo pessoas em dias festivos. No acampamento farroupilha, imagine uma micro-cidade em que todas as casas fazem churrasco no almoço e no jantar.
O chimarrão, também conhecido como mate amargo, é um legado do índio Guarani e bebida preferida do gaúcho. Constitui-se no símbolo da hospitalidade e da amizade. É o mate cevado sem açúcar, preparado em uma cuia e sorvido através de uma bomba. É a bebida proveniente da infusão da erva-mate, planta nativa das matas sul-americanas. Representa para alguns o aconchego e a chama da tradição agrupando pessoas ao seu redor, sem distinção de raça ou credo.
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Adriano Pereira, parabéns pelo excelente texto da matéria Uma cidade instantânea. A peculiaridade, cultura e hábitos dos gaúchos foi muito bem retratada e divulgada para todo o Brasil entender a nossa tradição.